Papo Cabeça

Brasileiros x gorjeta nos Estados Unidos

Esse ano, quando estive nos Estados Unidos para aperfeiçoar meu inglês, pedi à professora da minha escola em San Francisco que explicasse a questão da gorjeta porque, nós, brasileiros, estávamos passando por situações constrangedoras. Por aqui a gorjeta não é algo obrigatório, pois não faz parte da nossa cultura. Em solo americano, não é obrigação legal, mas, sim, moral e cultural.

A professora, americana nativa, nos disse que, nos Estados Unidos, pagar a “tip” (como eles chamam a gorjeta), é um hábito da cultura dos EUA. Também é uma forma de melhorar a remuneração dos garçons e garçonetes, que contam com um salário bem baixo. Lá o que você dá de gorjeta para um garçom fica com ele, diferente daquela taxa de serviço aqui do Brasil, que gira em torno de 10% e é, em tese, rateada entre os funcionários. A professora também explicou que, quando não tem dinheiro para pagar a gorjeta, o americano nem sai de casa. A partir daí, muitos passaram a entender como é complexa essa questão cultural da gorjeta.

Particularmente, eu não me importava em pagar, porque tenho comigo que quando estou “na casa dos outros”, eu devo seguir as regras deles. Mas muitos dos amigos brasileiros que estavam comigo tentavam aplicar lá regras culturais daqui que só nos deixavam em “saia justa”.

Veja bem: nos Estados Unidos paga-se a gorjeta de qualquer forma. Se for bem ou mal servido. O brasileiro pensa que a gorjeta é como se fosse um brinde. Na verdade acaba sendo porque, quanto mais bem servido se é, mais alta é a gorjeta dada ao garçom. Mas se o serviço saiu dentro dos conformes, sem nada além do habitual, deixa-se pelo menos 15% do valor. Mesmo em caso de mau atendimento, o que é raro por parte dos nativos americanos, quem te serviu espera ser recompensado.

De uma forma geral, o americano é muito educado com essa questão de não pagar a “tip”. Porém, caso você não pague a gorjeta, dificilmente você será atendido com a mesma rapidez ou presteza se tiver que voltar ao mesmo bar ou restaurante. Quando se pede um drink em um bar, para cada boa gorjeta que você der ao barman, ele te atenderá mais rápido e caprichará no preparo do próximo drink (é, nos EUA, você paga pela bebida no balcão, a cada vez que pede e não tudo no final, numa comanda). Se você não pagar a gorjeta, o barman até te atende, mas você fica para escanteio, sem jamais ser maltratado.

As situações mais constrangedoras que eu sofri com os amigos mais resistentes a pagar “tip” nos Estados Unidos não ocorreram com americanos, mas com imigrantes asiáticos, especialmente chineses (que estão em quase todas as áreas de prestação de serviços, como restaurantes e bares). Eles entendem que se você não paga a gorjeta, você está os ofendendo e eles reagem a ponto de quase te botar para fora do restaurante.

Em San Francisco, eu e duas amigas comemos em um restaurante japonês caríssimo (aliás, quase tudo em San Francisco é bem caro) e as amigas resistiram em pagar a tip. A chinesa perguntou onde estava a gorjeta e eu respondi que as meninas não queriam pagar porque o serviço não tinha sido bom. Ela pegou o dinheiro e foi para o caixa e saímos. Uma quadra depois, ouço alguém gritando “Sir, your money. I don’t need this (senhor, seu dinheiro. Não preciso disso)”. Era a chinesa me devolvendo uns 25 centavos de dólar que sobrariam da conta sem a gorjeta. As amigas morreram de rir da situação. Eu corei de vergonha e nunca mais voltei ao local.

Em Las Vegas, tive uma experiência gostosa com comida, na rede Denny’s. Uma americana negra e super simpática nos atendeu. Éramos 5 brasileiros. Gentilmente, ela nos explicou todo o cardápio com um inglês claro e muito sonoro, fez sugestões e explicou de novo, com a mesma gentileza, tudo o que havia dito até que todos da mesa entendessem o que ela queria nos oferecer. Saímos de lá maravilhados com a garçonete e deixamos uma boa gorjeta a qual ela comemorou e agradeceu a Deus como se aquilo fosse uma benção dos céus. Nunca vou esquecer esse dia.

(*) Breno Eustáquio é professor universitário

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