Uma breve experiência na Califórnia (parte 2)

Por Breno Eustáquio*

Acompanhado dois colegas intercambistas, os soteropolitanos Helena Rocha e Henrique Muniz, fui conhecer o famoso Pier 39 e o Fishman’s Wharf, na região portuária de North Beach, em San Francisco. Nosso plano era almoçar no famoso e delicioso restaurante Buba Gump, especializado em camarões e outros frutos do mar; admirar os leões marinhos, ver a lendária prisão de Alcatraz e admirar o lindo por-do-sol no Pacífico tendo ao fundo a também famosa ponte Golden Gate.

Fazia muito frio, algo em torno de 10 graus, mas com sensação térmica perto de zero por causa do vento. O sol brilhava e não havia nevoeiro, ou seja, o dia estava perfeito para turistar na Califórnia no primeiro dia do ano de 2019.
Eu queria fazer o trajeto de ônibus, pois havia conseguido entender o complexo sistema de transporte da cidade, que é composto ainda por metrô, trem elétrico e bondinho (cable car). Mas Helena insistiu para que fossemos de Uber, pois com o valor da passagem ficaria elas por elas.

O Uber é um caso à parte nos Estados Unidos, especialmente em San Francisco, onde está a sede mundial da empresa. Os motoristas do aplicativo exibem no painel do carro, com orgulho, uma plaquinha colorida e iluminada para se diferenciarem dos carros comuns. É muito diferente do Brasil, onde ser motorista de Uber é correr risco de vida por causa da resistência dos taxistas que estão beirando à falência por prestarem um serviço caro e bem inconveniente ao cliente. Eu uso muito o Uber quando estou em BH, São Paulo ou Rio de Janeiro, mas San Francisco é um laboratório do que o Uber ainda vai oferecer por aqui em terras tupiniquins.

São tantas opções de serviço, que fica até difícil escolher qual você quer. Há, inclusive, uma modalidade que estimula que você caminhe um pouco pela cidade para encontrar o Uber em pontos que sejam convenientes tanto para o motorista parar (o trânsito de San Francisco é bem pesado, como ocorre em toda cidade grande) quanto para o passageiro, que ainda ganha com o lado saudável de movimentar o corpo. E sai bem mais barato que pegar o Uber na porta de casa.

Eis que nosso Uber chega, com um senhor negro, alto e muito falante. O nome dele: Solomon (ou Salomão, em português). O sotaque denunciava ser imigrante e, logo logo, ele nos perguntou de onde éramos. Ele elogiou o Brasil e encheu o peito para falar de onde veio: Etiópia, no Nordeste da África. Não detalhou muito do seu país, mas falou bastante dos Estados Unidos, para onde imigrou ainda rapaz e conquistou tudo que um homem de nossa cultura sonha: imóvel, carro, família… Criou os filhos e teve condições de bancar os estudos do engenheiro e do médico em Stanford, uma das mais prestigiadas e caras do mundo.

De longe considerada a melhor universidade dos Estados Unidos. Com os filhos criados, netos já a caminho, Salomão nos contou sobre a grande tacada de sua vida: um imóvel de cerca de 100 mil dólares onde construiu a casa dos seus sonhos. Segundo ele, antes não havia ninguém no local onde comprou o lote. Hoje, a cidade de Palo Alto está bem desenvolvida e no quintal do Salomão está o campus do Facebook. Os 100 mil já valem hoje cerca de 2,5 milhões de dólares e o Salomão ainda não saiu do imóvel por dois motivos: primeiro pelo apego com o lugar onde criou a família e segundo pela expectativa de que o valor atual dobre.

A viagem terminou e cumprimos à risca o plano turístico. Tom Galvão, outro intercambista, porém de São Paulo (SP) nos acompanhou no almoço. À noite, de volta a nossa residência estudantil, contamos a história do Salomão para outros brasileiros.

E a inevitável pergunta foi feita: “Se ele é tão bem sucedido assim, porque ganha a vida como motorista de Uber?”. Eis que respondi: aqui nos Estados Unidos, nenhuma forma de trabalho é considera indigna. E diferente do Brasil, ser motorista não é vergonha nenhuma. Um motorista de Uber em San Francisco que esteja disposto a trabalhar bastante, consegue faturar até 2.500 dólares (cerca de R$9.500,00) por semana. É por essas e outras que logo você entende porque muita gente, como o Salomão, sai de sua terra para viver o sonho americano. Vale muito a pena.

Na foto, eu e os amigos Helena e Henrique, de Salvador (BA), no Pier 39 em San Francisco

(*) Breno Eustáquio é professor universitário

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui