Lugar
Qual o lugar do negro na sociedade? Por direito, todos! Mas na prática não é bem assim. Lugar de preto é na pobreza, é na cadeia, é na favela. E tem sido assim por séculos. Bobo é quem pensa que a supremacia branca não estabeleceu um “lugar” específico a essa população e muito de nós engolimos isso passivamente, alguns ousando até a dizer que há uma “vitimização” por parte da população negra e quem quer chega onde quiser, tal como ocorreu com o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. A pergunta é: com quantos Joaquins o STF (elite do Judiciário Nacional) conta?

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Racismo
Comecei a coluna dessa semana falando nesse tema porque o dia 21 de março foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. É uma data muito importante, porém muito pouco comentada no país do racismo velado. É uma ótima oportunidade para discutirmos questões como o mito da democracia racial que ainda assombra a sociedade brasileira. Mas o que seria isso, “democracia racial”? A ideia errônea de que no Brasil não existe preconceito, principalmente de cor.

Na escola 1
Jovem negra, muito orgulhosa de si por ter batalhado e conseguido realizar o sonho de se tornar educadora, a professora é incumbida pela diretora a buscar o material para sua aula. O funcionário responsável a encaminhou para o almoxarifado. Lá, a professora negra recebeu baldes e panos de chão para limpeza. Prontamente pegou tudo, agradeceu, prontificou-se a entregar para quem quer que fosse. E, muito educadamente, comunicou que, na verdade, o material que era queria era didático e não de limpeza.

Na escola 2
Passado algum tempo já atuando como educadora, a professora negra aguardava o ônibus para casa. Era o coletivo de uma linha que atendia à periferia da cidade. Esbaforida, uma outra negra chega e pergunta se o tal ônibus já havia passado. A professora responde que não, pois esperava pelo mesmo. Em tom de revolta, a companheira de coletivo desabafou: “nossas patroas nos prendem demais no serviço. Olha a hora que estamos voltando para casa?”. É que perto da escola há uma avenida onde mora a elite da cidade. Quase todas as empregadas que ali atuam são “mulheres de cor”.

Na escola 3
Aos 4 anos de idade, a pequena menina preta recebeu da tia uma boneca com a mesma cor de pele. Foi para escola e, depois de algum tempo voltou de lá pedindo uma boneca branca. Preocupada com a reação da menina, a mãe foi até a escola verificar o que acontecia. Na porta dos banheiros duas fotos, uma de menino e outra de menina, ambos brancos, para indicar masculino e feminino. Numa das paredes, um mural de Dia das Mães com “belas” fotos de mulheres loiras de olhos claros. Na biblioteca, livros didáticos, paradidáticos e de literatura sem qualquer menção a negros. Estava aí descoberto o problema: a garotinha preta não queria boneca preta, pois não se identificava com o lugar onde estava.

Realidade
As três histórias que acabo de contar aconteceram de fato e foram relatadas numa palestra sobre combate ao racismo que assisti em uma escola onde atuo. Muitos se emocionaram com vídeos e os relatos de quem convive com o racismo. É um Brasil que precisamos mudar e, como bem disse a palestrante, só com conhecimento é que vamos reduzir o abismo da desigualdade.

Para terminar…
Um último dado: pesquisas mostram que é na escola o lugar onde mais se vivencia preconceitos de cor, de raça e de gênero. A escola é o retrato da sociedade, pois as crianças levam pra lá toda a realidade do que está ao seu redor. Nenhuma criança nasce racista. Aprende a ser com adultos racistas.

*Breno Eustáquio, jornalista e professor.

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1 COMENTÁRIO

  1. Professor Breno, parabéns pelos textos. O racismo é um traço muito vergonhoso para aqueles que o repudiam. Em plena era da informação, da ciência almejando colonizar outros planetas, discutir sobre racismo nos dá a impressão de estarmos ainda no século 19. Tomara que consigamos um dia deixar o racismo apenas no passado e não no presente.

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