Um dos alertas mais graves feitos durante a reunião é que existe uma cota mensal de venda de agrotóxicos - Foto: Willian Dias

Imagine um mundo em que os médicos tivessem uma cota mensal para venda de remédios a seus pacientes e deixassem seus blocos de receita assinados nas mesas de suas secretárias, para que elas preenchessem de acordo com o desejo de cada um. Pode parecer absurdo, mas é justamente o que vivemos hoje no Brasil com relação ao receituário de agrotóxicos pelos agrônomos brasileiros.

A denúncia foi feita durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (27/9/17) pela Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Na reunião, foi discutido o uso excessivo de agrotóxicos no Brasil, tendo em vista que o País é o maior consumidor mundial desses produtos, enquanto Minas é o terceiro maior consumidor nacional.

Presidente da comissão, o deputado Antonio Carlos Arantes (PSDB) disse ter conhecido agricultores que morreram por intoxicação. “Sei que sem tecnologia não há produção suficiente para alimentar o mundo, mas é possível avançar na área dos cultivos orgânicos”, afirmou o parlamentar.

Um dos alertas mais graves veio do presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros Agrônomos, Emílio Mouchrek Filho. “Há uma cota mensal de venda de agrotóxicos”, denunciou Mouchrek, ao descrever a realidade vista em inspeções da entidade.

Mouchrek disse que, ao lado de casos irresponsáveis, há também exemplos positivos em Minas
Mouchrek disse que, ao lado de casos irresponsáveis, há também exemplos positivos em Minas – Foto: Willian Dias

Segundo ele, houve agrônomo que disse ser obrigado, sob ameaça de demissão, a deixar o bloco de receituário de agrotóxicos assinado, à disposição de clientes. “Vimos coisas absurdas”, descreveu Mouchrek, citando como exemplos a venda sem receita de um herbicida cancerígeno, o glifosato, exposto junto à ração e outros produtos.

Ele ressalvou que, ao lado de casos pouco éticos e irresponsáveis, há também em Minas exemplos positivos de pouco ou nenhum uso de agrotóxicos, mesmo em culturas como o morango, que tradicionalmente usa muito desses produtos.

A má formação dos agrônomos foi apontada como uma causa do uso excessivo de agrotóxicos também pelo representante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-MG), Gustavo Lopes da Silva, que cobrou mais qualidade dos cursos oferecidos no País.

Agrotóxico clandestino representa 25% do mercado

O deputado Fabiano Tolentino (PPS) chamou atenção para o problema do contrabando de agrotóxicos no Brasil. “A gente esquece o quanto chega ao País através de nossas fronteiras, onde não há a devida fiscalização”, lamentou.

O alerta do parlamentar foi reforçado pela diretora executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), Sílvia Fagnani. “Um quarto desse mercado no País é dominado pelo contrabando e pela falsificação. Isso é crime organizado”, afirmou a diretora.

Segundo Sívia Fagnani, os fiscais muitas vezes são ameaçados nos locais de inspeção

Como representante dos produtores de agrotóxicos, Sívia Fagnani admitiu que há problemas de mau uso dos produtos, tais como a falta de uso de equipamentos de segurança, falta de educação e dificuldade de fiscalização. Ela se referiu aos fiscais como heróis, que muitas vezes são ameaçados nos locais de inspeção. “Não estamos tratando de chocolates ou perfume. É necessário o controle”, admitiu.

Sívia Fagnani ressaltou que a legislação brasileira permite aos órgãos competentes solicitar a reavaliação de qualquer produto que venha a ser considerado perigoso para a saúde. Ela citou o exemplo do endosulfan, inseticida que foi proibido em 2010.

A diretora disse, no entanto, que é preciso avaliar se não seria melhor manter esses produtos sob controle, em vez de alimentar o crescimento do mercado negro. “Há notícias de produtores usando o endosulfan ilegal”, alertou.

Anvisa alerta sobre alimentos com alto índice de resíduos tóxicos

Diretora de Vigilância em Alimentos da Secretaria de Estado de Saúde, Ângela Ferreira Vieira alertou que a Vigilância Sanitária realiza o monitoramento dos resíduos de agrotóxicos em alimentos em que já foram detectados índices superiores aos permitidos, como abobrinha, pimentão e abacaxi, em Minas Gerais.

A coordenadora da Assessoria Técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline de Freitas Veloso, afirmou que é necessário cuidado para que a divulgação de pesquisas sobre agrotóxicos não prejudique os produtores rurais de forma generalizada. “A divulgação incorreta de pesquisas de resíduos de agrotóxico demoniza os produtores rurais”, afirmou.

Um exemplo de divulgação inadequada muito comentada na reunião foi a informação de que cada brasileiro consumiria cinco quilos de agrotóxico por ano, algo que representaria um volume totalmente irreal.

Isso não significa, no entanto, que não existam casos graves de intoxicação. O Grupo de Estudos de Saúde e Trabalho Rural (Gestru-UFMG) foi criado por causa de um índice muito alto de má formação fetal entre mulheres que trabalhavam em estufas para produção de rosas em Barbacena (Região Central do Estado). A informação é da professora Eliane Novato Silva, integrante do grupo.

Ela considera falsa a ideia de que as normas existentes no Brasil sejam adequadas ou suficientes para proteger a saúde do ser humano e o meio ambiente. “A toxicidade crônica pode se manifestar mais de dez anos após a exposição, com prejuízo até para os descendentes”, afirmou, exemplificando com o caso de Barbacena.

O presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Rui da Silva Verneque, acredita que há espaço para todos os tipos de cultivos: orgânico, ecológico ou convencional.

Segundo ele, os produtos orgânicos têm apresentado crescimento muito superior aos convencionais no Brasil: 20% contra 3%, respectivamente. Em sua opinião, isso é reflexo da exigência do próprio consumidor por produtos mais saudáveis.

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