Conta da greve

Conta da greve

Dizem que outra paralisação de grande porte está para ocorrer esses dias no Brasil. Depois dessa primeira, acho muito improvável outra igual. Até porque, a conta da greve chegou e pagá-la vai sair caro demais. O Governo de Minas, por exemplo, que já atrasa os salários de seus funcionários com pagamento escalonado, só liberou sexta-feira passada o pagamento de uma das parcelas do salário de abril, alegando que a greve causou mais prejuízos na arrecadação estadual.

Em Belo Horizonte, a Câmara de Dirigentes Lojistas quer dois meses de prorrogação do prazo de pagamento de impostos porque amargou prejuízos estimados em R$27 bilhões. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Flávio Roscoe, classificou a greve como “uma catástrofe” e disse que o fato “vai custar caro para a indústria de Minas”.

Mesmo assim, achei o movimento muito válido por vários motivos, principalmente por ter sido um fato histórico com uma categoria assumindo a voz da insatisfação de muitos brasileiros. Quem diria que, em ano eleitoral, os caminhoneiros peitariam o Governo Federal? E o melhor de tudo é que não foi por falta de aviso. Há mais de um ano que a categoria vem reivindicando uma forma de desoneração do principal item da formação de preços de quem trabalha com transporte: o diesel, que somado ao preço do frete, está praticamente insustentável. Os caminhoneiros estão pagando para trabalhar e já estava mais na hora do que dar um basta. Mas fica um alerta: as medidas são favoráveis no curto prazo. Quero ver é no longo prazo: vai virar outra conta que ninguém vai querer pagar.

Bolha

E apesar da expectativa de retorno à normalidade nesta segunda-feira, dia 4 de junho, o Governo continua estudando formas de evitar nova crise, já que preço da gasolina continua subindo e já passa de R$5 reais em alguns postos do Brasil. Se nada for feito, outra revolta com pedido de queda do governo será questão de tempo.

Falta consciência

A situação gerada por essa greve é interessante sob vários aspectos. O mais emblemático de todos é que, ao mesmo tempo que denota um aumento de conscientização política, mostra que o povo brasileiro ainda tem muito o que aprender em termos de consciência coletiva. A corrida aos postos para abastecimento assim que a gasolina começou a reaparecer, só mostra o quando o brasileiro só pensa em si e não nos outros. Se fosse em países da Europa como na Alemanha, os consumidores se organizariam para não abastecer com gasolina por dois ou três dias, forçando ainda mais o governo a tomar medidas para segurar os preços.

Como estamos falando de Brasil, o recado nada positivo foi dado por nós ao Governo: estamos famintos e é só jogar o osso que morderemos a isca. Pois pasmem: teve posto que colocou a gasolina a R$8 o litro e teve gente que ainda pagou. Não interessa se foi por necessidade: por mais nobre que seja a causa, é uma questão que atendeu ao individual e não ao coletivo e sem dúvida prejudicou muito o movimento. Agora tome aumento de gasolina, gás, eletricidade, etanol… A gente paga, o governo aumenta! Simples assim.

Cobertura

O que ficou mais feio nessa greve, para mim, foi a cobertura tendenciosa e pouco profissional dos meios de mídia mais poderosos do Brasil. Praticamente ouviram só um lado, dando voz e vez ao governo; mostraram mais os pontos negativos que os positivos e que se dane o cidadão. É a velha oligarquia que faz de tudo para manipular e manter no poder quem gasta gordas quantias com publicidade. Sempre foi assim e assim será.
Deu vergonha não só de ser brasileiro, mas também de ser jornalista. A vontade era de rasgar meu diploma! Ainda bem que as redes sociais, mesmo com toda a fragilidade das “fake news” cumpriu bem seu papel de dar publicidade a fatos que jamais a grande imprensa mostraria. Houve contraditório, houve, mas não nas devidas proporções.

Petrobras

“A Petrobras está diante de uma escolha de Sofia: ou assume o papel de estatal, com todo o peso da frase ‘O petróleo é nosso’, e fornece combustível com preço justo a todos os brasileiros, ou cumpre sua obrigação de dar lucro a seus acionistas – desde o governo até os aventureiros da Bolsa. As duas coisas, aparentemente, são incompatíveis (isso sem levar em conta a corrupção, que agravou tudo). A missão do novo presidente, Ivan Monteiro, é conciliar os dois lados”.

O texto acima é da jornalista Isis Mota publicado neste domingo (3) no jornal O Tempo. Essa breve análise que inicia uma reportagem muito maior é só a ponta do Iceberg desse problema que precisa ser resolvido. Pra mim, a solução é austeridade e corte de gastos para tornar máquina publica menos onerosa e permitir subsídios em áreas estratégicas. Mas quem sou eu para saber ou sugerir alguma coisa? Ninguém do Governo fala de corte de gastos mesmo. É que a moda secular (desde o Brasil colonial) ainda prevalece: aumentar impostos. Nada mais!

Breno Eustáquio é jornalista e professor

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