Crônica: Músicas ao contrário

Foto: Ilustração/Pixabay

Por Rodrigo Alves de Carvalho 

“Se você tocar o disco da Xuxa ao contrário, vai ouvir mensagens satânicas!” “Se tocar Stairway To Heaven da banda Led Zeppelin, vai ouvir mensagens subliminares” …

Sempre ouvi essas histórias de ouvir discos ao contrário, o que geralmente culminava em vozes do além que proferiam palavras do Tinhoso, ou mensagens maléficas de outro mundo.

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Entretanto, nunca de fato tinha tentado rodar um disco de vinil ao contrário para verificar se esses boatos eram verdadeiros, ou não passavam só de falácias mesmos.

Decidi comprar um toca-discos para averiguar a veridicidade do assunto. O que me deu um imenso trabalho, já que hoje em dia toca-discos é um objeto de colecionador. Achei na Internet um daqueles toca-discos compactos, que parece uma pequena maleta, e ao abrir, a tampa é o alto falante, o que custou os olhos da cara. Depois, tive que procurar em alguns Sebos da região o famigerado disco da Xuxa e o classicão Led Zeppelin IV. Não deu tanto trabalho como outrora, mas os discos saíram bem carinhos para quem está acostumado a baixar músicas e álbuns de graça na Web.

Finalmente pude tirar a prova se realmente ao tocar esses discos ao contrário, alguma coisa de surreal iria ser proferida pela caixa monofônica do toca-discos oitentão.

Primeiro o disco da Xuxa… Ilarilarilariê (ô, ô, ô) … meti o dedo na bolachona e comecei a rodar no sentido anti-horário…

Se realmente aqueles zunidos e palavras misturadas com uma melodia rasgada fossem mensagem do além, estavam numa língua satânica mesmo, que só o diabo entendia, porque eu não entendi nada. Depois coloquei o disco do Led Zeppelin, mas quando os primeiros acordes de Stairway To Heaven começaram a tocar, não tive coragem de rodar o disco ao contrário. A música era muito linda… para que estragar?

Depois de ouvir outros discos que aproveitei e comprei no Sebo, como Amado Batista, Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Antônio Marcos e um discão de quase meio quilo da década de trinta da Aracy de Almeida, parei com essa história ridícula de ouvir mensagens satânicas e me apaixonei pelo vinil e principalmente, as músicas de antigamente, que em comparação com as músicas de hoje não tem nada de satânicas.

Muito pelo contrário. Dias desses parou um carro perto de casa com o som no talo tocando esse tal de Funk proibidão. Ao ouvir aquilo, me pareceu realmente estar nas profundezas do inferno, sendo torturado cruelmente por um demônio, recebendo estocadas nos ouvidos a cada batida, com lanças pontudas e ardentes perfurando o cérebro.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.
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