A revista A Estrela está indo para a terceira edição

O completo desrespeito à dignidade humana tem ganhado as manchetes da imprensa neste início de ano. Rebeliões, chacinas e fugas de presídios superlotados denunciam a calamidade do sistema prisional brasileiro. Em meio a essa triste realidade, inciativas que prezam pela integridade das pessoas privadas de liberdade resistem com dificuldade e, muitas vezes, sem o apoio dos governantes. É o caso do trabalho realizado pela Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac).

Para mostrar um pouco dessa realidade e como as ações de ressocialização trazem novas perspectivas, a revista A Estrela retorna à Apac. Em sua terceira edição, o periódico será realizado, pela primeira vez, por mulheres que cumprem pena. Entre 23 e 29 de janeiro, 25 recuperandas da Apac Feminina de Rio Piracicaba, participam de aulas de jornalismo e fotografia conduzidas, respectivamente, por Natália Martino e Leo Drumond, idealizadores do Projeto Voz.

Durante o curso, as participantes da Apac Feminina de Rio Piracicaba terão aulas teóricas, práticas monitoradas, discussão de pautas e tempo para produção de conteúdo dentro e fora da unidade prisional. A revista será um canal de expressão das detentas, com funções informativas e artísticas. O trabalho é parte do Projeto Voz, que reúne uma série de iniciativas voltadas à discussão de assuntos relacionados ao sistema carcerário. Para mais informações, acesse www.projetovoz.com.

“Em outros trabalhos do Projeto Voz, tivemos a oportunidade de ir a unidades carcerárias femininas e ficou evidente para nós que a prisão tem impactos diferentes em suas vidas e nas vidas de suas famílias”, destaca Natália Martino. Segundo ela, em um sistema carcerário feito por homens e para homens, as mulheres costumam passar por privações maiores dentro das unidades e, ainda, sofrem mais com o abandono dos familiares. “Até os crimes pelos quais são condenadas têm características muito diferentes. Por isso é importante produzir essa edição da revista A Estrela com as mulheres, para que elas falem das suas realidades e nos ajudem, assim, a ter mais um pedaço desse quebra-cabeça enorme que é o sistema carcerário”.

“Se oferecemos algo ruim às pessoas, elas vão nos dar algo ruim em troca”

Em nove anos de existência da Apac de São João del Rei, a agente administrativa da unidade, Daniela Fazzion, conta que a revista A Estrela foi uma das melhores ações já realizadas no local. De acordo com ela, o projeto teve um significado muito importante para os participantes e surtiu um efeito que será levado para a vida toda. “É uma experiência de desenvolvimento humano, que motiva e mostra a capacidade que essas pessoas têm de escrever, fotografar, desenhar, de contar uma história. O projeto fortaleceu a autoconfiança e a autoestima dos participantes ao dar total liberdade para eles escolherem o assunto que quisessem abordar, sem qualquer interferência externa. “Em um ambiente que você não pode escolher nem a roupa que vai usar, isso é muito significativo”, disse.

Fazzion chama a atenção para a necessidade de mudanças urgentes no sistema carcerário brasileiro e ressalta que as chacinas que ocorreram recentemente em unidades prisionais não foram acidentais. “Se oferecemos algo ruim às pessoas, elas vão nos dar algo ruim em troca. Essa é a realidade da maioria dos presídios brasileiros”. Por outro lado, ela destaca que os bons exemplos de ressocialização, como é o caso da Apac,  precisam ser difundidos. “A circulação de um veículo como A Estrela é ainda mais importante neste momento. É uma forma de mostrar que as mesmas pessoas que erraram e fizeram muito mal a alguém, podem se transformar em pessoas melhores e fazer algo de positivo”.

Publicidade

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui