Eu, professor

Eu, professor – Breno Eustáquio*

Lembro bem o dia que entrei em sala de aula pela primeira vez. Era o ano de 1987, numa escola infantil que não existe mais. A dona era a amável e saudosa tia Merli e a professora era tia Bete, de quem não tenho mais notícias. Eu estava rodeado de crianças que choravam como se o mundo fosse acabar, pois era a primeira vez que seus pais as deixavam sozinhas com estranhos. Eu nem liguei. Despedi-me de minha mãe e fui me aventurar pelo delicioso mundo da pedagogia, onde me senti acolhido e amado.

Mal sabia eu que ali seria o meu lugar de trabalho, de onde eu tiraria meu ganha pão, assim como seria algo que eu carregaria como minha principal responsabilidade: afinal, educação é coisa séria, especialmente num país como o Brasil, onde a cultura prega que sala de aula é coisa chata de gente chata e que escola é inimiga da diversão.

Eu tenho 37 anos dos quais 30 passei na sala de aula seja como aluno, seja como professor. Tenho muito orgulho disso e acho que já tenho propriedade para fazer algumas comparações e/ou expor algumas memórias. Foi na sala de aula que experimentei o amor de educadores realmente comprometidos com a função e também manifestações de fúria e preconceito por parte de quem não tinha preparo algum, mas estava lá, burlando o sistema e contribuindo para o caos educacional brasileiro.

Lembro como se fosse ontem uma professora me humilhando em sala de aula porque quando criança eu tinha voz “afeminada”. Isso me custou um bullying que durou quase todo o ensino fundamental, o que só se findou quando já adolescente os hormônios fizeram a minha voz tornar-se naturalmente masculina. Agora me responda: que criança tem voz “de homem”?

Não fui um aluno exemplar. Procurei ser em quase todas as hipóteses. Briguei, conversei, avacalhei algumas aulas e devo ter sido responsável pelos cabelos brancos de muitos professores que hoje são meus nobres colegas. Infelizmente, só me dei conta disso depois que passei pro outro lado do balcão e experimentei as mesmas experiências. Aqui vão meus sinceros pedidos de desculpas aos docentes os quais por algum motivo eu não respeitei como deveria.

Ser professor no Brasil não é nada fácil. Seja no sistema público ou no sistema privado, em qualquer um dos níveis (fundamental, médio ou superior) somos vulneráveis a vários tipos de situação, pois é na escola que os problemas da sociedade se refletem. Percebo um sistema de pais escravos do dinheiro e que deixam seus filhos para serem educados pelo pobre coitado do professor. Pais que veem na escola a solução para o problema de não terem onde deixar o filho porque precisam trabalhar até mais tarde.

Professor que dá dever é um problema não só para o estudante que quer passar o tempo livre nas redes sociais ou jogando videogame, mas, sobretudo, para os pais que não têm tempo de supervisioná-los. Professor que deixa pra lá o aluno que não quer nada também é um problema para o pai que pagou pelo livro didático caro e que por isso quer que o filho preencha todos os exercícios como se isso fosse garantia de retorno do “investimento”.

Professor que coloca o aluno para fora também é um problema, só que para a equipe pedagógica, já assoberbada de outras situações com alunos mais problemáticos, calendário escolar apertado e regulamentos a serem cumpridos por causa do rigor da fiscalização do Governo. E por incrível que pareça, o Governo fiscaliza de fato a educação (o que não vejo como problema).

A toda essa situação, soma-se ainda o problema da remuneração. Professor ganha mal, muito mal no Brasil. E qualquer valor a mais que você pague ao professor, não cobre as horas de dedicação, estudos adicionais e papeis de pai/mãe, psicólogo, pedagogo, amigo e outras coisas mais que só quem está à frente da sala de aula sabe que é obrigado a cumprir.

Aliás, quer saber se seu filho recebe uma educação de qualidade? Pergunte ao professor dele em quantas escolas ele precisa trabalhar para fazer um salário digno. A resposta será no mínimo duas ou três, com 35 a 60 horas/aula por semana. Sabe o que isso significa? Alguém que tem mais de 20 diários para preencher, “trocentas” horas de aula para preparar e nadinha de nada de vida social.

E o cenário só piora. Agora, com o advento da tecnologia, inventaram que os professores precisam se reinventar. Que precisam inverter a sala de aula, dar mais autonomia para os alunos e inserir a tecnologia no aprendizado em escolas onde laboratório de informática com Internet é artigo de luxo. E as escolas oferecem estrutura e capacitação para isso?

Talvez só aquelas famosas e de grife das capitais. E olhe lá. No mais, a capacitação de docentes muitas vezes se resume a duas reuniões semestrais, cujo assunto principal é chamar a atenção do professor “que não faz nada”, que não entende a necessidade do aluno (cliente)… Ah, o cliente! A relação mais perigosa da pedagogia, talvez atrás apenas do fato de que muita gente resolve se tornar professor porque “não deu certo” na profissão para a qual estudou. Um engenheiro ou um dentista ou um advogado pode se tornar professor com facilidade no Brasil. O inverso não é possível. E a Reforma da Previdência? 40 anos lecionando não será pra qualquer um…

Êta profissão difícil. Mas não me faço de rogado. Sou mais forte que tudo isso. Eu, professor, sigo minha vocação na esperança e certeza de que estou tentando construir um país melhor. Mesmo que isso me custe muito mais do que posso pagar. O que me consola? É ver ex-alunos fazendo sucesso. É sentimento de dever cumprido que salário nenhum cobre. Eu, professor, sou sofrimento, sou dificuldade, sou responsabilidade, sou paixão e sou orgulho.

(*) Breno Eustáquio é professor universitário

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