Comando da PM, PC e Ministério Público detalha operação

A Operação Carcinoma, desencadeada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), composto pelas Polícias Civil, Militar e Ministério Público Estadual, desarticulou nesta terça-feira (9) um esquema criminoso para desvio de dinheiro da Associação de Apoio à Pessoa com Câncer (AAPEC), que funcionava em Ipatinga e mais cinco cidades mineiras. Ao fim, os investigados podem responder por crimes como estelionato, apropriação indébita e formação e quadrilha, entre outros.

Assim que o dia amanheceu o grupo de 72 policiais civis e militares cumpriu oito mandados de prisão temporária e 22 mandados de busca e apreensão, apreenderam R$ 38 mil, carros de luxo e motocicletas esportivas. O trabalho contou, inclusive, com o trabalho de peritos contábeis do Instituto de Criminalística da PC em Belo Horizonte. A operação atingiu unidades da associação, além de Ipatinga, em Governador Valadares, Coronel Fabriciano, Santana do Paraíso, Belo Horizonte e Viçosa, esta última a cidade onde a entidade está localizada como sede, e não Ipatinga, como se acreditava.

Em Ipatinga foram presos a fundadora da AAPEC, Zilma Ferreira da Silva, 58, que no papel é a presidente, o filho dela, Eduardo Silva de Souza, 33 anos, que de fato dirigia a entidade e a mulher dele, Dafny Sá Domingos, 28 anos, que também era administradora. O Gaeco estima que entre 30% e 40% de cerca de R$ 1 milhão mensais eram desviados da AAPEC.

O promotor de Justiça, Bruno Schiavo, que acompanhou a operação, informou que foi nomeado um interventor judicial para assumir o comando da entidade. “A intenção é que a entidade continue a prestar o seu serviço, agora, exclusivamente às pessoas com câncer, que é a sua finalidade”, concluiu. O número de pessoas atendidas, valores exatos da arrecadação, ainda estão em levantamento, explicou o promotor.

Os acusados ainda não tinham, até a tarde de terça-feira, os advogados devidamente constituídos, mas informaram que somente seus defensores irão se pronunciar sobre o caso.

Convênios

A principal fonte de arrecadação de dinheiro da AAPEC eram doações solicitadas pela equipe de telemarketing da associação. Tanto, que os R$ 38 mil apreendidos ontem foram recolhidos com motoboys que chegavam com o resultado da coleta junto aos doadores.

Entre os anos de 2014 e 2015 a AAPEC era irrigada também com dinheiro público. Nestes anos vigorou um convênio com a Prefeitura de Ipatinga, no valor de R$ 107 mil anuais. Este ano, em função das dificuldades financeiras, o convênio não foi renovado.

“Nos dois anos em que vigorou o convênio, toda a prestação de contas está em dia. A prefeitura vai acompanhar o processo, face às denúncias apresentadas pelo Gaeco. Vamos encaminhar toda a documentação referente aos convênios e prestar todas as informações necessárias à investigação”, informou a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Ipatinga.

Sensibilidade

O comandante da 12ª Região da Polícia Militar, tenente-coronel Edvanio Carneiro, enfatizou o resultado da união de forças entre as polícias Militar, Civil e Ministério Público, para combater o crime organizado. O comandante também afirmou que as pessoas que contribuíram com a entidade não devem se sentir culpadas.

“A finalidade da entidade era ajudar as pessoas e famílias de pacientes com câncer. Isso toca a todos nós. O crime, o erro foi das pessoas que se apossaram dessa entidade para desviar os seus recursos em benefício próprio. Muitas entidades prestam serviços de forma séria a quem realmente precisa”, enfatizou.

Desvio

Recurso desviado bancava vida de ostentação dos dirigentes, afirma o Gaeco

Conforme as investigações do Gaeco, a receita da associação aumentava progressivamente, mas, o número de pessoas atendidas só diminuía. A entidade assistencial não pode ter lucro, não pode ter dinheiro em caixa. Foi então que os dirigentes decidiram, conforme a investigação, montar um esquema para desviar o dinheiro. Acredita-se que o esquema “sangrava” cerca de 60% do dinheiro arrecadado, por meio de empresas que eles mesmos montaram para prestar serviços.

Uma das empresas era a Global Telemarketing, da qual Dafny Sá Domingos se apresenta como proprietária, em sua página no Facebook. A Global funcionava dentro da sede da AAPEC, na rua Machado de Assis. Também foi criada a Clínica Odontológica Oralis na avenida Selim José de Sales, no bairro Canaã, igualmente alvo da operação de busca e apreensão ontem. Em uma nova fase da operação, a partir desta terça-feira, o Gaeco investiga 17 empresas associadas ou que se relacionavam com prestação de serviços e fornecimento para a entidade.

O delegado Gilmaro Alves, que atuou nas investigações explicou que o estatuto da associação, estabelece que nenhum familiar dos dirigentes poderia assumir cargo na entidade. Entretanto, os levantamentos indicam que a presidente Zilma Ferreira, embora assinasse pela entidade, tinha o filho e a nora no comando de todas as ações. “Ela nem sequer morava em Ipatinga, estava em Belo Horizonte”, observou o delegado.

As primeiras suspeitas de irregularidades foram levadas e denunciadas por ex-funcionários, que estranharam o número de assistidos, não condizente com o volume de dinheiro arrecadado.

Para o Gaeco, as investigações que duraram seis meses mostraram que o grupo criminoso montou o esquema com o intuito de enriquecimento ilícito, mediante apropriação de recursos públicos e de dinheiro arrecadado com doações.

“As doações do público, em vez de terem sido empregadas em favor de portadores de câncer, eram quase que por completo abocanhadas pela organização criminosa, inclusive, com esquema de lavagem de
dinheiro, em um verdadeiro estelionato coletivo e crimes contra a economia popular”, divulgou o Gaeco.
O nome da operação, Carcinoma, tem a origem em um tumor maligno, com alta taxa de incidência.

Dinheiro desviado em entidade bancava ostentação

Além do enriquecimento e a vida de ostentação, com carros de luxo e motos esportivas, apropriados pelo casal administrador de fato da AAPEC, eles ainda residiam em um imóvel de propriedade da associação, na rua Aleijadinho, no bairro Cidade Nobre, enquanto a própria entidade dependia de um imóvel alugado para funcionar, na rua Machado de Assis. Somente nessa casa foram apreendidos um Corolla, um Fusion e uma motocicleta Kawasaki/Ninja ZX14R.
As investigações do Gaeco apontam que o dinheiro da entidade era usado pelos diretores para arcar com as despesas com alimentação, construções, viagens, festas e academias, além de despesas pessoais dos investigados.

Doadores de recursos manifestam indignação

Wellington Fred

Neuza Marta, que sempre doava para a AAPEC quer saber do resultado da operação

Moradora do bairro Cidade Nobre, a enfermeira Neuza Marta viu a operação na sede da AAPEC, na manhã desta terça-feira e foi indagar sobre o que ocorria no local. Ficou indignada ao saber da operação policial. “Fazemos doações semanalmente para essa entidade. Estou chocada com isso tudo. Vamos aguardar as investigações para fazer a conclusão desse caso. Em se confirmando todas essas acusações, vamos ficar muito decepcionados com isso. Muitas entidades sérias, compromissadas, podem ser prejudicadas com esse escândalo”, concluiu.

A preocupação e indignação de Neuza Marta é a mesma manifestada por centenas de pessoas que repercutiram o escândalo a partir das notícias publicadas nesta terça-feira. “Queremos saber quem são essas pessoas. Esperamos que as autoridades tenham provas suficientes para revelar quem são os responsáveis”, pediu um leitor. Outro destacou a importância de as pessoas, antes de fazer qualquer tipo de doação, avaliar primeiro a quem vai doar. “Todo dia as pessoas pedem ajuda para entidade, mas que dia nós fomos lá conhecer de perto?”, indagou.

Wellington Fred

Dirigentes moravam nessa casa da entidade, mas associação pagava aluguel de outro imóvel para funcionar
Fonte: Diário do Aço
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