De acordo com o pesquisador, os materiais lignocululósicos vão conceder novas propriedades aos produtos, como maior resistência à tração, tenacidade e isolamento térmico

Projetos aprovados pela Chamada Pública 4/2016, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), estudam soluções ecológicas para destinar os milhões de toneladas de rejeitos de mineração despejados na Bacia do Rio Doce em novembro do ano passado devido ao rompimento da barragem da Samarco, no município de Mariana.

A ideia dos pesquisadores é de reaproveitar os resíduos sólidos na construção civil, por meio da criação de cadeia produtiva local de fabricação tijolos, telhas, blocos e pisos, por exemplo.

Um dos projetos aprovados é do pesquisador Rafael Farinassi Mendes, doutor em Ciência e Tecnologia da Madeira vinculado à Universidade Federal de Lavras (Ufla). O cientista já desenvolve um estudo sobre a aplicação de materiais lignocelulósicos (eucalipto, pinus, bagaço de cana, casca de café, entre outros) em artigos a base de cimento, como telhas de amianto, blocos, pisos e tijolos.

Com o aporte da Fapemig, Rafael Farinassi vai expandir a pesquisa e estudar a adição destas fibras vegetais aos resíduos de mineração para produção de artigos ecológicos que possam ser usados com segurança na construção civil.

De acordo com o pesquisador, os materiais lignocululósicos vão conceder novas propriedades aos produtos, como maior resistência à tração, tenacidade e isolamento térmico.

“Minha linha de pesquisa trabalha com a substituição do amianto por compósitos de fontes renováveis. O cimento é muito quebradiço, pode trincar e quebrar. Por outro lado, ele pode ser melhorado com a inserção das fibras vegetais, da mesma forma que os resíduos de mineração, agregando novas propriedades ao material e ampliando a sua utilidade”.

Rafael  Farinassi, pesquisador vinculado à Universidade Federal de Lavras

O pesquisador enfatiza que a medida permite não apenas a substituição de materiais de enchimento como a areia – a quantidade de areia corresponde somente por 30% a 50% da massa de um produto -, como já foi difundido pela imprensa. A iniciativa também vai permitir a substituição de outros componentes de custo mais elevado, como o próprio cimento, assegurando o uso do resíduo de mineração em grande escala.

Com isso, os artigos para a construção civil teriam um menor custo, propriedades diferenciadas das que existem atualmente e, portanto, maior competitividade no mercado.

Uma vez produzidos, os artigos poderão ser comercializados em larga escala e utilizados na reconstrução de casas, estabelecimentos, ruas e calçadas da própria região.

 Pesquisa e inovação

Em outra frente de pesquisa trabalha Fernando Soares Lameiras, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN). De acordo com o pesquisador, a proposta é de usar o resíduo depositado no leito do rio Gualaxo do Norte e na barragem de Candonga para fabricar blocos semelhantes ao tijolo maciço.

Com o aporte da Fapemig, o cientista espera atingir as especificações técnicas exigidas pelo mercado de construção civil, como resistência e absorção de água adequadas. Lameiras também participa de Fórum Permanente para Aplicação de Resíduos da Mineração em Larga Escala, criado pela Fapemig.

“A intenção é de pegar o resíduo, formado por lama, argila, material arenoso e orgânico, e acrescentar um baixo percentual de fundente. Depois de colocar no forno, forma-se uma liga bastante resistente e assim conseguimos aproveitar o material. A matéria orgânica queima e não atrapalha a mistura. A ideia é fazer um agregado parecido com um tijolo, que pode ser usado em alvenaria, por exemplo”.

Fernando Lameiras, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN)

Desde o rompimento da barragem, em novembro de 2015, a Fapemig tem incentivado pesquisadores a estarem mais próximos às demandas da sociedade relacionadas ao desastre. Com esse propósito surgiu o fórum, que tem o intuito de mobilizar protagonistas dos setores empresarial (mineração e cadeia produtiva), científico, educacional e governamental para conduzirem os processos de mudança necessários para uma mineração mais sustentável, competitiva e inclusiva.

 Geração de emprego e renda

Além de permitir a destinação adequada dos resíduos de mineração, ambos os projetos preveem que a fabricação dos artigos de construção civil vão se tornar em novas fontes de emprego e renda para a população afetada durante anos.

A identificação do uso correto dos resíduos vai tornar possível a instalação de microempresas locais e o consequente desenvolvimento econômico da região.

“Queremos colocar no ponto para ser aplicado em escala industrial. Nosso sonho é que seja criada uma fábrica na região para gerar emprego e renda”, defende Fernando Soares.

Além dos resíduos da barragem de Bento Rodrigues despejados na Bacia do Rio Doce, Rafael Farinassi estima que são produzidos, por ano, 25 milhões de toneladas de rejeitos de mineração, material que também poderia ser matéria-prima para os novos empreendimentos locais.

 Chamada Pública

Ao todo, foram submetidos 145 projetos e, após a análise das Câmaras de Assessoramento da Fapemig, 29 propostas foram encaminhadas para contratação. Juntas, elas totalizam o aporte de R$ 4 milhões a serem investidos pela fundação.

Das 29 propostas escolhidas, seis estão dentro da linha temática Recuperação do Solo, sete na Recuperação da Água, oito na Recuperação da Biodiversidade e oito na linha Tecnologias Sociais.

A chamada foi uma parceria entre a Fapemig e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e teve como objetivo financiar projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação visando à recuperação das áreas atingidas.

Clique aqui para conferir o resultado da chamada pública.

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