Aulas serão exclusivas para detentas que trabalham em oficina de confecção instalada dentro do maior complexo penitenciário feminino do estado (Dirceu Aurélio / Sejusp)

Sobre panos, agulhas e corte elas já aprenderam bastante e entendem bem. Agora, as oito internas que trabalham na confecção da marca Libertees instalada no Complexo Penitenciário Estevão Pinto, em Belo Horizonte, começaram um curso sobre o mundo dos negócios, com duração prevista de um ano. A primeira aula aconteceu na manhã desta terça-feira (3/9), na própria oficina e, neste primeiro momento, a capacitação é focada no desenvolvimento humano.

Os encontros serão quinzenais e o principal objetivo do programa de profissionalização é desenvolver habilidades fundamentais para atuação no mercado de trabalho, bem como contribuir com a recolocação profissional dessas mulheres. O curso será ministrado pela psicóloga Líbia Pimenta, que realiza pela primeira vez este tipo de trabalho no sistema prisional.

De acordo com a professora, o desenvolvimento pessoal e profissional depende de como a pessoa se percebe. “Se eu não sei como eu sou e como eu reajo a determinadas situações, como eu vou fazer algo que vai me levar aos meus objetivos? Espero fazer com que elas vislumbrem isso de si mesmas. Para mim está sendo uma riqueza, porque eu de fato acredito no que é possível. Tem que ter trabalho. Eu não acredito em mágica, quando você estala os dedos e as coisas acontecem. Eu quero mostrar que elas têm uma riqueza interior imensa, e acho que elas precisam se entender mais e saber administrar”.

A matriz curricular do curso conta com disciplinas como autoconhecimento; o indivíduo e seu mundo; motivação; trabalho em equipe; comunicação, comportamento em processos seletivos e atendimento ao público. A carga horária é de 48h e todas as participantes receberão diploma de conclusão do curso.

Para a diretora geral da unidade Márcia Lopes, a parceria se prova cada vez mais benéfica, em especial no processo de ressocialização. “Este trabalho desenvolvido pela Libertees é muito positivo. Estamos muito satisfeitas com a possibilidade de ampliação do espaço da oficina e geração de novas oportunidades de trabalho. Este é um modelo de encarceramento que agrega valores sociais e garante uma qualificação profissional promissora”.

Vida nova

Há três meses Dayane Cristina Bispo, 32 anos, deixou o complexo penitenciário depois de passar três anos presa. Enquanto cumpria pena, ela foi uma das primeiras selecionadas para trabalhar na confecção da Libertees e acompanhou todo o projeto desde o início. Logo após receber seu alvará de soltura, procurou as donas da empresa, foi convidada para trabalhar com as empresárias em uma feira e seguiu atuando com a marca. Apesar de já estar do lado de fora dos muros, ela também participará do curso com as outras presas e hoje, na abertura, fez questão de dar um depoimento sobre sua nova vida.

“Trabalhando aqui com elas, eu não tinha noção de como isso era visto lá fora. Eu achei muito interessante a forma como a marca foi apresentada e quis abraçar também essa causa, até por saber como é a vida aqui dentro da penitenciária. E não é porque eu saí da unidade prisional que vou esquecer isso tudo. Eu quis voltar para dar meu depoimento e incentivar as meninas que estão presas. Estou muito feliz de ter um emprego e dar continuidade a algo que comecei aqui dentro. Voltar e reencontrá-las foi muito bom. É um novo começo de vida, com novos pensamentos” relatou Dayane.

Marcela Mafra e sua sócia Daniela Queiroga, donas da Libertees, contam que a intenção é sempre auxiliar as presas que saem do sistema prisional. “Nós não ficamos satisfeitas em finalizar o trabalho aqui e não ajudar quando elas estiverem lá fora. Pensamos em formas de fazer essa ponte. Não queremos deixá-las desamparadas. E nós nos surpreendemos com as habilidades da Dayane e como ela é dinâmica. Ela abriu mão de outras propostas para trabalhar conosco” afirmam.

Libertees

De um despretensioso projeto das aulas de arte a uma marca de roupas femininas. Foi assim que nasceu a parceria entre a Escola Estadual Estevão Pinto, instalada no complexo penitenciário feminino de mesmo nome, em Belo Horizonte, e a confecção Liberte-se, que já funcionava na unidade desde 2013. A Libertees nasceu em 2017 na primeira exposição das aulas de artes. Marcella Mafra, uma das proprietárias, ficou encantada quando viu os quadros e teve a ideia de transformar aqueles desenhos em estampas.

Toda a produção tem mãos de detentas, do desenho à costura. A marca já participou quatro vezes do Minas Trend, principal evento da moda de Minas Gerais, e um dos mais importantes do país. Desde sua criação, a marca vem ganhando atenção por seu trabalho social e desenho único, sendo escolhida duas vezes pelo estilista Ronaldo Fraga na curadoria Design de Autor do evento.

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