Superlotação causa motim no Presídio de João Monlevade

Mesmo com a transferência de 88 presos, a unidade ainda está com uma população carcerária muito acima do ideal, que é de 75 detentos, o que poderá provocar um novo colapso a qualquer momento

Um forte esquema policial foi montado para evitar que houvessem fugas

Presos revoltados com a superlotação da unidade prisional de João Monlevade deram início a um motim por volta das 22h30 deste sábado (26) e só foi controlada durante a madrugada, com a transferência de 88 apenados para cadeias e presídios da região.

A unidade, que tem capacidade de 75 detentos, estava no momento da crise com 288.

Segundo o diretor-adjunto do Presídio, Wellington Eustáquio, o motim teve início por volta das 22h30 e durou cerca de uma hora e não houve reféns. A Polícia Militar foi acionada e fez a segurança do lado de fora da unidade enquanto agentes penitenciários de Belo Horizonte, Itabira e Barão de Cocais, que vieram dar apoio aos agentes locais, ajudarem na transferência dos presos durante a madrugada.

Ainda segundo Wellington os presos danificaram duas celas da Ala A. “Eles quebraram pedaços de paredes, camas de concreto e arrancaram ferragens da estrutura, com isso, alguns deles se feriram”, pontuou. Os materiais foram jogados no corredor das celas.

O diretor-adjunto disse que a situação foi controlada, pelos agentes conforme determina as diretrizes da SUAPI.

Ele informou que na manhã desta segunda-feira (28), uma lista com os nomes dos presos que foram transferidos, será afixada na portaria da unidade prisional.

Após o motim ser controlado, os presos foram foram colocados no pátio para contagem e verificar se haviam feridos graves.

As duas celas danificadas foram isoladas e terão que passar por reformas. Não foi permitido pela direção, fazer imagens do interior do Presídio. Muito lixo e colchões foram retirados do interior das celas e colocados no pátio.

Bell Silva
Os diretores responsáveis pela unidade disseram que o motivo do motim foi a superlotação da unidade

O major Jayme Alves, comandante da 17a Companhia de Polícia Militar Independente disse que foi solicitado apoio da PM para ajudar na segurança externa da unidade. “Nossa equipes cercaram o prédio para evitar fugas. Sinalizamos o trânsito mantendo isolada a frente até a chegada do reforço do efetivo dos agentes penitenciários para trabalharem na área interna, que é de responsabilidade deles. Então a Polícia Militar não entrou no Presídio, apenas permaneceu em apoio do lado de fora para que se caso algum preso tentasse fugir, fosse capturado imediatamente”, disse Jayme Alves. Ele disse ainda que não houve feridos.

O Juiz Rodrigo Braga esteve no local e autorizou a transferência dos presos.

Mesmo com a retirada de 88 detentos, a unidade ainda continua com uma população carcerária muito acima do ideal, o que pode provocar um novo motim a qualquer momento.

Os presos quebraram pedaços de concreto e ferragens das camas e colunas. Fotos: Bell Silva
Os presos quebraram pedaços de concreto e ferragens das camas e colunas. Fotos: Bell Silva

Familiares denunciam condições dos presos na unidade

Parentes de detentos que ficaram sabendo do motim foram para a porta do Presídio onde permaneceram durante toda a madrugada, em busca de notícias. Nossa reportagem conversou com alguns deles.

Claudete Dias Duarte, tia de um apenado, disse que chegou lá por volta das 23h e viu presos saindo do local em viaturas e machucados. “Houve tiros, bombas e cachorro latindo. É uma covardia com a família que está aqui fora, porque eles não tem coragem de vir aqui informar. Ele acha que somos bandidos, queremos apenas informações. Presos foram transferidos e nós não sabemos quem foi e nem pra onde foram. Ficamos aqui à mercê deles completamente sem notícias”, disse.

Os policias deixaram o local já por volta das 09h da manhã de hoje
Os policias deixaram o local já por volta das 09h da manhã de hoje

Clesenilda Cândida, esposa de um apenado disse que eles estão sendo tratados com discriminação e falta de respeito. “Eles acham que porque somos parentes de presidiários, nós somos bandidos. Quem não está sujeito a errar? Todo mundo está sujeito a errar e nem por isso eles podem tratar a gente com indiferença e falta de respeito. O que queremos é o mínimo de respeito, informação e eles não fazem isso. Já aconteceu tanta coisa ai dentro essa noite, tiro, presos saído machucado e eles não informam. E se o que saiu machucado for meu parente, como vou saber”, questionou.

Ainda segundo Clesenilda, a superlotação é um problema grave e que já havia sido revelada por diversos detentos. “Tem cela ali que tem 44 presos e não cabe nem 20. A superlotação é muito grande. Outra coisa é o desrespeito com familiar no dia de visita. As humilhações que passamos. Infelizmente eles [agentes], olham o lado deles mas não olham o nosso como família. Não pedimos pra passar por isso, mas já que estamos passando, exigimos o mínimo de respeito”, disse.

Edson Martins de Paula, pai de um detento também fez um desabafo. “Entendo que ele [filho] está aí por o motivo justo, mas eu discordo da forma com que a lei é aplicada e lamento até, o sistema prisional do nosso país falido, está quebrado. Juízes sem compreensão alguma lançam pessoas ao cárcere para receberem uma condição sub-humanas. Isso é lamentável, porque não tem banheiro pra tomar banho nesta cadeia, não tem condições mínimas de higiene, uma área insalubre, pessoas amontoadas no mesmo espaço. Denúncias de cinco pessoas dormindo sobre o mesmo colchão e isso é lamentável. Eu já tinha isso como um barril de pólvora, a pronto para explodir. Só que a questão é, a quem vamos recorrer, quem vai nos ajudar”, disse revoltado.

Ainda de acordo com Edson Martins, já teria encaminhado aos Direitos Humanos uma denúncia sobre as condições precárias do Presídio, pedindo providências. “Infelizmente nós não temos acesso à Juízes, nós não temos condições nenhuma de chegar até ele. Pelo menos desconheço meios pra chegar até ele, se não por meio de advogados”, pontuou concluindo que os presos são inibidos de denunciar as condições na unidade. “As coisas ai funcionam desta forma. As pessoas não tem o direito de falar e expressar a forma como são tratados e nem como estão sendo tratados. Agora, se é pra aplicar a Justiça gente, que ela seja feita com justiça, mas não vamos fazer injustiça em nome da justiça e é o que está acontecendo”, concluiu.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Depois que o bicho tá quebrado vc n foi n aí na hora que todo mundo foi de bonde foi embora vc aparece que reporte que é vc o ocorrido foi 22:30 horas de sábado vc aparece no domingo as 08:30 parabéns vc tinha que na hora que o preso tava gritando vc tá de parabéns assim vai longe ????

    • Jonathan boa tarde.
      Você está completamente equivocado a meu respeito. Não te conheço mas vou me dar a oportunidade de te responder.

      Primeiramente sou ser humano, que dorme e tem sentimentos e problemas como qualquer um. Você não perguntou por que não fui mais cedo e nem os motivos. Não sou o único repórter da cidade, que conta com pelo menos 10 meios de comunicação. Isso é papel de toda a imprensa. Não sei por que você cobrou apenas a minha presença se tem tantos outros jornalistas na cidade?

      Não sou obrigado a estar em locais onde as pessoas pensam ou querem que eu esteja. Estive lá e conversei com familiares, policias e com a direção da SUAPI, que é o nosso papel. Mesmo se estivesse lá no momento, o que eu poderia fazer. Cheguei lá muito tempo depois e ai está a reportagem.

      Espero ter respondido seus questionamentos e me coloco à disposição para o que for necessário.

      Bell Silva

  2. Conheço o Bell há pouco tempo, mas já consegui apurar o quão comprometido está com a notícia de qualidade. Não havia como estabelecer um contato mais estreito ontem, haja vista o próprio isolamento do local e as questões de segurança envolvendo o perímetro de uma unidade prisional em vias de negociação. É legítimo o reclamo da sociedade para cobrar notícias em tempo real, mas também é injusto culpar alguém pela atual situação de todo o Sistema. Bell tem realizado coberturas de qualidade sem medir esforços e sem questionar horários. Profissional de extrema competência e seriedade no trato da notícia. Parabéns pelo excelente trabalho prestado a sociedade Monlevadense, caro amigo Bell.

  3. A reportagem ficou ótima, completa e transparente. E independente de quem esteja preso ou o motivo, é necessário um pouco de dignidade (não muita, pois são bandidos ). Parabéns por esta e pelas demais reportagens!

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